A Fé Salvadora

sábado, 2 de maio de 2009

1. Termos Bíblicos Para Fé

a. Os Termos do Velho Testamento: O Velho Testamento não possui nenhum substantivo para fé, a não ser que emunah seja assim considerado em Hb 2:4. Esta palavra significa ordinariamente “fidelidade” (Dt 32:4; Sl 36:5; Sl 37:3; Sl 40:11), mas o modo pelo qual a afirmação de Habacuque é aplicada no Novo Testamento (Rm 1:17; Gl 3:11; Hb 10:38); parece indicar que o profeta empregou o termo no sentido de fé. A palavra mais comum do Velho Testamento para “crer” é he’emin, e é usada em construções gramaticais com as preposições beth e lamedh. Com a primeira, evidentemente se refere a um confiante descanso numa pessoa ou coisa ou testemunho; com a segunda, significa o assentimento dado a um testemunho aceito como verdadeiro.

b. Os Termos do Novo Testamento: Duas palavras são empregadas em todo o Novo Testamento, a saber, pistis e o verbo cognato pisteuein. No grego clássico, a palavra pistis tem dois sentidos: i. Ela indica uma convicção baseada na confiança numa pessoa e no seu testemunho, que, como tal, distingue-se do conhecimento apoiado numa investigação pessoal; ii. A confiança propriamente dita, mais do que uma simples convicção intelectual, pressupõe uma relação pessoal com o objeto de confiança,. Um sair de si mesmo para descansar em outrem. Na Septuaginta, o verbo pisteuein geralmente serve como tradução da palavra he’emin, e assim expressa a idéia de fé tanto no sentido de assentimento à Palavra de Deus, como de real confiança nele. No Novo Testamento indica: i. Uma crença ou convicção intelectual, apoiada no testemunho de outrem, e, portanto, baseada na confiança nesta outra pessoa, e não numa investigação feita pessoalmente (Fp 1:27; II Co 4:13; II Ts 2:13); ii. Uma completa confiança em deus, ou, mais particularmente, em Cristo, com vistas à redenção do pecado e à bem-aventurança futura (Rm 3:22,25; Rm 5:1,2; Rm 9:30,32; Gl 2:16; Ef 2:8; Ef 3:12).

2. Expressões Figuradas Empregadas Para Descrever a Atividade da Fé

a. É descrita como um olhar para Jesus (Jo 3:13,14). Há nesta expressão um ato de percepção (elemento intelectual), uma fixação deliberada dos olhos no objeto (elemento volitivo) e uma certa satisfação que a referida concentração testifica (elemento emocional).

b. É representada também por fome e sede, comer e beber (Mt 5:6; Jo 6:50-58). Quando comemos e bebemos, não só temos a convicção de que o alimento e a bebida necessários estão presentes, mas também a confiante expectativa de que eles nos satisfarão.

c. Há também as figuras de vir a Cristo e recebê-lo (Jo 5:40; Jo7:37). A figura de vir a Cristo retrata a fé como uma ação na qual o homem olha para longe de si e dos seus próprios méritos, para ser revestido da justiça de Jesus Cristo; e a do receber a Cristo ressalta o fato de que a fé é um órgão de apropriação.

3. A Doutrina da Fé na História

a. Antes da Reforma

Não havia uma definição da fé, que fosse de uso comum. Conquanto houvesse a tendência de usar a palavra “fé” para denotar a aceitação da verdade com base no testemunho, nalguns casos também era empregada num sentido mais profundo, de modo a incluir a idéia de rendição pessoal à verdade recebida intelectualmente.

Os alexandrinos contrastavam pistis com gnosi, e consideravam aquela primariamente como um conhecimento incipiente e imperfeito.

Tertuliano salientava o fato de que a fé aceita uma coisa com base numa autoridade, e não porque fosse assegurada pela razão humana. Ele também usava o termo num sentido objetivo, como designativo daquilo que deve ser crido (a regra da fé).

Ao tempo de Agostinho, pouca atenção foi dada à natureza da fé, embora esta sempre fosse reconhecida como o preeminente meio para a apropriação da salvação. Agostinho, porém, às vezes a considerava como nada mais que o assentimento intelectual à verdade. Mas concebia a fé evangélica ou justificadora como incluindo também os elementos de rendição pessoal e amor. Esta fé é aperfeiçoada pelo amor e, assim, vem a ser o princípio das boas obras.

Os escolásticos distinguiam entre uma fé informe , isto é, um simples assentimento intelectual à verdade ensinada pela igreja, e uma fé formada pelo amor , isto é, fé à qual foi dada uma forma característica pelo amor, e considerava esta última como a única fé que justifica. Estritamente falando, é o amor, pelo qual a fé é aperfeiçoada, que justifica. Assim, com a fé foi feito um alicerce para o mérito humano. O homem é justificado, não exclusivamente pela imputação dos méritos de cristo, mas também pela graça inerente.

b. Depois da Reforma

Enquanto os escolásticos davam ênfase ao fato de que a fé justificadora é simples assentimento e tem sua sede no entendimento, os Reformadores geralmente a consideravam como fiducia (confiança), com a sua sede na vontade. Eles eram unânimes e explícitos ao ensinarem que a fé que justificadora não justifica por qualquer eficácia meritória ou inerente por si própria, mas somente como o instrumento hábil para receber ou tomar o que Deus proveu nos méritos de Cristo.

Os arminianos revelaram uma tendência romanizante, quando conceberam a fé como uma obra meritória do homem, com base na qual ele é bem aceito por Deus.

4. A Idéia de Fé na Bíblia

a. No Velho Testamento: É evidente que os escritores do Novo Testamento, ao salientarem a fé como o princípio fundamental da vida religiosa, não estava, querendo substituir as bases e abandonar o ensino do Velho Testamento. Eles consideravam Abraão como tipo de todos os crentes (Rm 2:28,29; Rm 4:12; Gl 3:9). Há um senso de continuidade e a proclamação da fé é considerada a mesma nas duas dispensações (Jo 5:46; Jo 12:38,39; Hc 2:4; Rm 1:17; Rm 1’0:16; Gl 3:11; Hb 10:38. em ambos os Testamentos a fé é a mesma entrega pessoal a Deus, cmo o gracioso salvador do pecador.

a.1 No Período Patriarcal: há escassas declarações abstratas a respeito do método da salvação. A essência da religião é-nos demonstrada pela ação. Toda a vida de Noé foi determinada pela confiança em deus e em suas promessas. Abraão é colocado diante de nós como o crente típico, que se entrega a Deus com inabalável confiança em sua promessas e é justificado pela fé.

a.2 No Período da Lei: A dádiva da Lei não efetuou uma mudança fundamental na religião de Israel, mas apenas introduziu uma alteração em sua forma externa, a Lei não substituiu a promessa; tampouco foi a fé suplantada pelas obras. É verdade que muitos viam a lei com espírito puramente legalista e procuravam basear o seu direito à salvação num escrupuloso cumprimento da Lei; mas os que compreenderam a sua natureza real, perceberam a espiritualidade da lei, e isto serviu para aprofundar o sentimento de pecado e para aguçar a convicção de que só da graça de deus se podia esperar salvação. No período da lei, a fé é distintamente sotereológica, olhando para a salvação messiânica. É uma confiança no Deus da salvação, uma firme segurança em suas promessas quanto ao futuro.

b. No Novo Testamento: Nos Evangelhos a exigência de fé em Jesus como o Redentor prometido e esperado, apareceu como algo característico da nova era. (Crer” significava tornar-se cristão. Em Atos requer-se fé no mesmo sentido geral, pela pregação dos apóstolos, os homens são levados à obediência da fé em Cristo; e esta fé vem a ser o princípio normativo da nova comunidade. A idéia de Tiago sobre fé que justifica não difere da de Paulo, mas ele ressalta o fato de que esta fé tem que se manifestar em boas obras. Já o apóstolo Paulo, devido a jactâncxia de dos judeus, teve que reivindicar o lugar da fé como o único instrumento da salvação; e, assim, a fé justifica e salva somente porque ela ser agarra a Jesus Cristo. O Escritor da Epístola aos Hebreus também considera Cristo como o objeto da fé salvadora, e ensina que não há justiça senão pela fé (Hb 10:38; Hb 11:7). Nas epístolas de Pedro encontramos a ênfase à relação da fé com a salvação consumada, a fim de avivar dentro dos corações a esperança que os sustentaria em suas presentes provações, a esperança de uma glória invisível e eterna. Por fim, nos escritos de João, vemos a fé envolvendo conhecimento como uma firme convicção e torna os crentes imediatamente possuidores da nova vida e da salvação eterna.

5. A Fé em Geral

O vocábulo “fé” não é um termo exclusivamente religioso e teológico, e, portanto, tem mais de uma conotação.

a. Fé Como Pouco Mais Que Mera Opinião: Locke definiu a fé como “o sentimento da mente a preposições que são prováveis, mas não certamente verdadeiras”. Noutras palavras, “creio, mas não tenho certeza”.

b. Fé Como Certeza Imediata: Há uma certeza que o homem pode obter por meio da percepção, da experiência e da dedução lógica, mas há também uma certeza intuitiva. Em toda ciência há axiomas que não podem ser demonstrados, e convicções intuitivas que não são adquiridas pela percepção ou pela dedução lógica. Por este prisma, a fé é considerada exclusivamente como uma atividade do intelecto.

c. Fé Como Convicção Baseada em Testemunho e Incluindo Confiança: No linguajar comum a palavra “fé” é empregada muitas vezes para denotar a convicção de que o testemunho de outra é veraz, e de que o que ele promete será feito; convicção baseada unicamente em sua reconhecida veracidade e fidelidade. É uma confiante aceitação do que o outro diz, com base na confiança que ele inspira.

6. A Fé no Sentido Religioso e Particularmente a Fé Salvadora

a. Conceito de Fé

Se a fé em geral é uma persuasão da verdade fundada no testemunho de alguém em quem temos confiança e em quem descansamos, e, portanto, apóia-se numa autoridade; a fé cristã, no sentido mais abrangente, é a persuasão do homem quanto à veracidade da Escritura, com base na autoridade de Deus.

Nem sempre a Bíblia fala da fé religiosa no mesmo sentido, e isto deu surgimento às seguintes distinções, na teologia.

a.1 Fé Histórica: É a pura e simples apreensão da verdade, vazia de qualquer propósito moral ou espiritual. Esta fé aceita as verdades da Escritura como uma pessoa poderia aceitar o relato histórico no qual ela não esta interessada pessoalmente. Esta fé pode ser resultado da tradição, da educação, da opinião pública, do discernimento da grandeza da Escritura, e doutros fatores mais, acompanhados pelas operações gerais do Espírito Santo. Pode ser muito ortodoxa e escriturística, mas não está arraigada no coração (Mt 7:26; At 26:27,28; Tg 2:19).

a.2 Fé Miraculosa: É a persuasão produzida na mente de uma pessoa de que um milagre será realizado por ela ou em favor dela (Mt 17:20; Mc 16:17,18). Não é necessariamente acompanhada pela fé salvadora, mas pode ser.

a.3 Fé Temporal: É chamada de fé temporária porque não é permanente e não se mantém nos dias de provação e perseguição. Não significa que não pode durar a vida inteira da pessoa. É bem certo que só perecerá por ocasião da morte, mas então é certo que perecerá. Os que possuem esta fé, usualmente acreditam que têm a fé verdadeira. Ela difere da fé histórica no interesse pessoal que mostra pela verdade e na reação dos sentimentos à verdade; e, por isso, é difícil diferencia-la da fé verdadeira (Mt 13:21). Esta fé não brota da raiz implantada na regeneração, e, portanto, não é expressão da nova vida entalhada nas profundezas da alma do pecador regenerado. Ela se baseia na vida emocional e busca satisfação pessoal, em vez da glória de Deus.

a.4 A Verdadeira Fé Salvadora: Esta fé tem sua sede no coração e sua raízes na vida regenerada. Não é primeiramente uma atividade do homem, mas uma potencialidade produzida por Deus no coração do pecador. A semente da fé é implantada no homem quando da regeneração. Quando a Bíblia fala da fé, geralmente se refere à fé como uma atividade do homem, mas nascida da obra realizada pelo Espírito Santo. Pode-se, portanto, definir a fé salvadora como uma certa convicção produzida pelo Espírito Santo no coração, quanto à veracidade do Evangelho, e uma segurança (confiança) nas promessas de Deus em Cristo.

b. Os Elementos da Fé

Ao falarmos dos diferentes elementos da fé, não devemos perder de vista o fato de que a fé é uma atividade do homem como um todo, e não de alguma parte dele. Além disso, no exercício da fé, a alma funciona através das suas faculdades comuns, e não através de alguma faculdade especial. Para se obter uma apropriada concepção da fé, é necessário distinguir entre os vários elementos que ela compreende.

b.1 O Elemento Intelectual: O conhecimento que caracteriza a fé consiste de um reconhecimento positivo da verdade, em que o homem aceita como verdadeiro tudo quanto deus diz em sua palavra, e especialmente o que ele diz a respeito da profunda depravação do homem e da redenção que há em Cristo Jesus. Este conhecimento é-nos mediado e comunicado pelo testemunho de Deus em sua Palavra, e é aceito por nós como certo e confiável, com base na veracidade de Deus. A certeza deste conhecimento tem sua garantia em Deus mesmo e, consequentemente, nada pode ser mais certo. Quanto maior conhecimento real a pessoa tiver das verdades da redenção, mais rica e mais completa será sua fé.

b.2 O Elemento Emocional: Quando alguém abraça a Cristo pela fé, tem uma profunda convicção da veracidade e da realidade do objeto da fé, sente que ela preenche uma importante necessidade da sua vida, e tem consciência de um absorvente interesse por ele – e isto é sentimento.

b.3 O Elemento Volitivo: A Fé não é apenas questão de intelecto, nem de intelecto e sentimentos combinados: também é questão de vontade, determinando a direção da alma, um ato da alma que parte rumo ao seu objeto e dele apropria. Levando todos estes elementos em consideração, fica mais que evidente que a sede da fé não pode ser colocada nem no intelecto, nem nos sentimentos, nem na vontade, de modo exclusivo, mas unicamente no coração, o órgão central do ser espiritual, do qual procedem as fontes da vida.

c. O Objeto da Fé

A fé salvadora no sentido mais limitado da expressão tem seu foco de atenção na pessoa de Jesus Cristo e a promessa da salvação por intermédio dele. O ato especial da fé consiste em receber a Cristo e descansar nele como ele é apresentado no Evangelho (Jo 3:15,16,18; Jo 6:40). Estritamente falando, não é o ato de fé como tal, mas, antes, aquilo que é recebido pela fé, que justifica e, portanto, salva o pecador.

d. A Base da Fé:

A base da fé está na veracidade e fidelidade de Deus, em conexão com as promessas do Evangelho. Mas, porque não temos conhecimento disto fora da Palavra de Deus, esta também pode ser considerada a base última da fé, e frequentemente o é .

Os católicos romanos vêem na igreja a base da fé e os racionalistas só a reconhecem na razão.

e. Fé e Certeza

A Igreja Católica ensina que os crentes não podem estar seguros da salvação, exceto nos raros casos em que a segurança é dada por revelação especial.

Os arminianos primitivos, que compartiam a posição semipelagiana de Roma, adotaram uma conceituação similar.

Os Reformadores reagiram contra a posição da Igreja católica e salientavam de modo unilateral a certeza ou segurança como um elemento mais importante da fé.

Os antinomianos consideravam esta segurança como constituindo totalmente a essência da fé. ignoravam todas as outras atividades da fé e consideravam a fé simplesmente como uma aceitação intelectual da proposição: “são-te perdoados os teus pecados”.

Kuyper, Bavink e Vos, sustentavam acertadamente que a verdadeira fé, que inclui confiança, traz consigo um senso de garantia segurança, que pode variar em grau.

1. Termos Bíblicos Para Fé

a. Os Termos do Velho Testamento: O Velho Testamento não possui nenhum substantivo para fé, a não ser que emunah seja assim considerado em Hb 2:4. Esta palavra significa ordinariamente “fidelidade” (Dt 32:4; Sl 36:5; Sl 37:3; Sl 40:11), mas o modo pelo qual a afirmação de Habacuque é aplicada no Novo Testamento (Rm 1:17; Gl 3:11; Hb 10:38); parece indicar que o profeta empregou o termo no sentido de fé. A palavra mais comum do Velho Testamento para “crer” é he’emin, e é usada em construções gramaticais com as preposições beth e lamedh. Com a primeira, evidentemente se refere a um confiante descanso numa pessoa ou coisa ou testemunho; com a segunda, significa o assentimento dado a um testemunho aceito como verdadeiro.

b. Os Termos do Novo Testamento: Duas palavras são empregadas em todo o Novo Testamento, a saber, pistis e o verbo cognato pisteuein. No grego clássico, a palavra pistis tem dois sentidos: i. Ela indica uma convicção baseada na confiança numa pessoa e no seu testemunho, que, como tal, distingue-se do conhecimento apoiado numa investigação pessoal; ii. A confiança propriamente dita, mais do que uma simples convicção intelectual, pressupõe uma relação pessoal com o objeto de confiança,. Um sair de si mesmo para descansar em outrem. Na Septuaginta, o verbo pisteuein geralmente serve como tradução da palavra he’emin, e assim expressa a idéia de fé tanto no sentido de assentimento à Palavra de Deus, como de real confiança nele. No Novo Testamento indica: i. Uma crença ou convicção intelectual, apoiada no testemunho de outrem, e, portanto, baseada na confiança nesta outra pessoa, e não numa investigação feita pessoalmente (Fp 1:27; II Co 4:13; II Ts 2:13); ii. Uma completa confiança em deus, ou, mais particularmente, em Cristo, com vistas à redenção do pecado e à bem-aventurança futura (Rm 3:22,25; Rm 5:1,2; Rm 9:30,32; Gl 2:16; Ef 2:8; Ef 3:12).

2. Expressões Figuradas Empregadas Para Descrever a Atividade da Fé

a. É descrita como um olhar para Jesus (Jo 3:13,14). Há nesta expressão um ato de percepção (elemento intelectual), uma fixação deliberada dos olhos no objeto (elemento volitivo) e uma certa satisfação que a referida concentração testifica (elemento emocional).

b. É representada também por fome e sede, comer e beber (Mt 5:6; Jo 6:50-58). Quando comemos e bebemos, não só temos a convicção de que o alimento e a bebida necessários estão presentes, mas também a confiante expectativa de que eles nos satisfarão.

c. Há também as figuras de vir a Cristo e recebê-lo (Jo 5:40; Jo7:37). A figura de vir a Cristo retrata a fé como uma ação na qual o homem olha para longe de si e dos seus próprios méritos, para ser revestido da justiça de Jesus Cristo; e a do receber a Cristo ressalta o fato de que a fé é um órgão de apropriação.

3. A Doutrina da Fé na História

a. Antes da Reforma

Não havia uma definição da fé, que fosse de uso comum. Conquanto houvesse a tendência de usar a palavra “fé” para denotar a aceitação da verdade com base no testemunho, nalguns casos também era empregada num sentido mais profundo, de modo a incluir a idéia de rendição pessoal à verdade recebida intelectualmente.

Os alexandrinos contrastavam pistis com gnosi, e consideravam aquela primariamente como um conhecimento incipiente e imperfeito.

Tertuliano salientava o fato de que a fé aceita uma coisa com base numa autoridade, e não porque fosse assegurada pela razão humana. Ele também usava o termo num sentido objetivo, como designativo daquilo que deve ser crido (a regra da fé).

Ao tempo de Agostinho, pouca atenção foi dada à natureza da fé, embora esta sempre fosse reconhecida como o preeminente meio para a apropriação da salvação. Agostinho, porém, às vezes a considerava como nada mais que o assentimento intelectual à verdade. Mas concebia a fé evangélica ou justificadora como incluindo também os elementos de rendição pessoal e amor. Esta fé é aperfeiçoada pelo amor e, assim, vem a ser o princípio das boas obras.

Os escolásticos distinguiam entre uma fé informe , isto é, um simples assentimento intelectual à verdade ensinada pela igreja, e uma fé formada pelo amor , isto é, fé à qual foi dada uma forma característica pelo amor, e considerava esta última como a única fé que justifica. Estritamente falando, é o amor, pelo qual a fé é aperfeiçoada, que justifica. Assim, com a fé foi feito um alicerce para o mérito humano. O homem é justificado, não exclusivamente pela imputação dos méritos de cristo, mas também pela graça inerente.

b. Depois da Reforma

Enquanto os escolásticos davam ênfase ao fato de que a fé justificadora é simples assentimento e tem sua sede no entendimento, os Reformadores geralmente a consideravam como fiducia (confiança), com a sua sede na vontade. Eles eram unânimes e explícitos ao ensinarem que a fé que justificadora não justifica por qualquer eficácia meritória ou inerente por si própria, mas somente como o instrumento hábil para receber ou tomar o que Deus proveu nos méritos de Cristo.

Os arminianos revelaram uma tendência romanizante, quando conceberam a fé como uma obra meritória do homem, com base na qual ele é bem aceito por Deus.

4. A Idéia de Fé na Bíblia

a. No Velho Testamento: É evidente que os escritores do Novo Testamento, ao salientarem a fé como o princípio fundamental da vida religiosa, não estava, querendo substituir as bases e abandonar o ensino do Velho Testamento. Eles consideravam Abraão como tipo de todos os crentes (Rm 2:28,29; Rm 4:12; Gl 3:9). Há um senso de continuidade e a proclamação da fé é considerada a mesma nas duas dispensações (Jo 5:46; Jo 12:38,39; Hc 2:4; Rm 1:17; Rm 1’0:16; Gl 3:11; Hb 10:38. em ambos os Testamentos a fé é a mesma entrega pessoal a Deus, cmo o gracioso salvador do pecador.

a.1 No Período Patriarcal: há escassas declarações abstratas a respeito do método da salvação. A essência da religião é-nos demonstrada pela ação. Toda a vida de Noé foi determinada pela confiança em deus e em suas promessas. Abraão é colocado diante de nós como o crente típico, que se entrega a Deus com inabalável confiança em sua promessas e é justificado pela fé.

a.2 No Período da Lei: A dádiva da Lei não efetuou uma mudança fundamental na religião de Israel, mas apenas introduziu uma alteração em sua forma externa, a Lei não substituiu a promessa; tampouco foi a fé suplantada pelas obras. É verdade que muitos viam a lei com espírito puramente legalista e procuravam basear o seu direito à salvação num escrupuloso cumprimento da Lei; mas os que compreenderam a sua natureza real, perceberam a espiritualidade da lei, e isto serviu para aprofundar o sentimento de pecado e para aguçar a convicção de que só da graça de deus se podia esperar salvação. No período da lei, a fé é distintamente sotereológica, olhando para a salvação messiânica. É uma confiança no Deus da salvação, uma firme segurança em suas promessas quanto ao futuro.

b. No Novo Testamento: Nos Evangelhos a exigência de fé em Jesus como o Redentor prometido e esperado, apareceu como algo característico da nova era. (Crer” significava tornar-se cristão. Em Atos requer-se fé no mesmo sentido geral, pela pregação dos apóstolos, os homens são levados à obediência da fé em Cristo; e esta fé vem a ser o princípio normativo da nova comunidade. A idéia de Tiago sobre fé que justifica não difere da de Paulo, mas ele ressalta o fato de que esta fé tem que se manifestar em boas obras. Já o apóstolo Paulo, devido a jactâncxia de dos judeus, teve que reivindicar o lugar da fé como o único instrumento da salvação; e, assim, a fé justifica e salva somente porque ela ser agarra a Jesus Cristo. O Escritor da Epístola aos Hebreus também considera Cristo como o objeto da fé salvadora, e ensina que não há justiça senão pela fé (Hb 10:38; Hb 11:7). Nas epístolas de Pedro encontramos a ênfase à relação da fé com a salvação consumada, a fim de avivar dentro dos corações a esperança que os sustentaria em suas presentes provações, a esperança de uma glória invisível e eterna. Por fim, nos escritos de João, vemos a fé envolvendo conhecimento como uma firme convicção e torna os crentes imediatamente possuidores da nova vida e da salvação eterna.

5. A Fé em Geral

O vocábulo “fé” não é um termo exclusivamente religioso e teológico, e, portanto, tem mais de uma conotação.

a. Fé Como Pouco Mais Que Mera Opinião: Locke definiu a fé como “o sentimento da mente a preposições que são prováveis, mas não certamente verdadeiras”. Noutras palavras, “creio, mas não tenho certeza”.

b. Fé Como Certeza Imediata: Há uma certeza que o homem pode obter por meio da percepção, da experiência e da dedução lógica, mas há também uma certeza intuitiva. Em toda ciência há axiomas que não podem ser demonstrados, e convicções intuitivas que não são adquiridas pela percepção ou pela dedução lógica. Por este prisma, a fé é considerada exclusivamente como uma atividade do intelecto.

c. Fé Como Convicção Baseada em Testemunho e Incluindo Confiança: No linguajar comum a palavra “fé” é empregada muitas vezes para denotar a convicção de que o testemunho de outra é veraz, e de que o que ele promete será feito; convicção baseada unicamente em sua reconhecida veracidade e fidelidade. É uma confiante aceitação do que o outro diz, com base na confiança que ele inspira.

6. A Fé no Sentido Religioso e Particularmente a Fé Salvadora

a. Conceito de Fé

Se a fé em geral é uma persuasão da verdade fundada no testemunho de alguém em quem temos confiança e em quem descansamos, e, portanto, apóia-se numa autoridade; a fé cristã, no sentido mais abrangente, é a persuasão do homem quanto à veracidade da Escritura, com base na autoridade de Deus.

Nem sempre a Bíblia fala da fé religiosa no mesmo sentido, e isto deu surgimento às seguintes distinções, na teologia.

a.1 Fé Histórica: É a pura e simples apreensão da verdade, vazia de qualquer propósito moral ou espiritual. Esta fé aceita as verdades da Escritura como uma pessoa poderia aceitar o relato histórico no qual ela não esta interessada pessoalmente. Esta fé pode ser resultado da tradição, da educação, da opinião pública, do discernimento da grandeza da Escritura, e doutros fatores mais, acompanhados pelas operações gerais do Espírito Santo. Pode ser muito ortodoxa e escriturística, mas não está arraigada no coração (Mt 7:26; At 26:27,28; Tg 2:19).

a.2 Fé Miraculosa: É a persuasão produzida na mente de uma pessoa de que um milagre será realizado por ela ou em favor dela (Mt 17:20; Mc 16:17,18). Não é necessariamente acompanhada pela fé salvadora, mas pode ser.

a.3 Fé Temporal: É chamada de fé temporária porque não é permanente e não se mantém nos dias de provação e perseguição. Não significa que não pode durar a vida inteira da pessoa. É bem certo que só perecerá por ocasião da morte, mas então é certo que perecerá. Os que possuem esta fé, usualmente acreditam que têm a fé verdadeira. Ela difere da fé histórica no interesse pessoal que mostra pela verdade e na reação dos sentimentos à verdade; e, por isso, é difícil diferencia-la da fé verdadeira (Mt 13:21). Esta fé não brota da raiz implantada na regeneração, e, portanto, não é expressão da nova vida entalhada nas profundezas da alma do pecador regenerado. Ela se baseia na vida emocional e busca satisfação pessoal, em vez da glória de Deus.

a.4 A Verdadeira Fé Salvadora: Esta fé tem sua sede no coração e sua raízes na vida regenerada. Não é primeiramente uma atividade do homem, mas uma potencialidade produzida por Deus no coração do pecador. A semente da fé é implantada no homem quando da regeneração. Quando a Bíblia fala da fé, geralmente se refere à fé como uma atividade do homem, mas nascida da obra realizada pelo Espírito Santo. Pode-se, portanto, definir a fé salvadora como uma certa convicção produzida pelo Espírito Santo no coração, quanto à veracidade do Evangelho, e uma segurança (confiança) nas promessas de Deus em Cristo.

b. Os Elementos da Fé

Ao falarmos dos diferentes elementos da fé, não devemos perder de vista o fato de que a fé é uma atividade do homem como um todo, e não de alguma parte dele. Além disso, no exercício da fé, a alma funciona através das suas faculdades comuns, e não através de alguma faculdade especial. Para se obter uma apropriada concepção da fé, é necessário distinguir entre os vários elementos que ela compreende.

b.1 O Elemento Intelectual: O conhecimento que caracteriza a fé consiste de um reconhecimento positivo da verdade, em que o homem aceita como verdadeiro tudo quanto deus diz em sua palavra, e especialmente o que ele diz a respeito da profunda depravação do homem e da redenção que há em Cristo Jesus. Este conhecimento é-nos mediado e comunicado pelo testemunho de Deus em sua Palavra, e é aceito por nós como certo e confiável, com base na veracidade de Deus. A certeza deste conhecimento tem sua garantia em Deus mesmo e, consequentemente, nada pode ser mais certo. Quanto maior conhecimento real a pessoa tiver das verdades da redenção, mais rica e mais completa será sua fé.

b.2 O Elemento Emocional: Quando alguém abraça a Cristo pela fé, tem uma profunda convicção da veracidade e da realidade do objeto da fé, sente que ela preenche uma importante necessidade da sua vida, e tem consciência de um absorvente interesse por ele – e isto é sentimento.

b.3 O Elemento Volitivo: A Fé não é apenas questão de intelecto, nem de intelecto e sentimentos combinados: também é questão de vontade, determinando a direção da alma, um ato da alma que parte rumo ao seu objeto e dele apropria. Levando todos estes elementos em consideração, fica mais que evidente que a sede da fé não pode ser colocada nem no intelecto, nem nos sentimentos, nem na vontade, de modo exclusivo, mas unicamente no coração, o órgão central do ser espiritual, do qual procedem as fontes da vida.

c. O Objeto da Fé

A fé salvadora no sentido mais limitado da expressão tem seu foco de atenção na pessoa de Jesus Cristo e a promessa da salvação por intermédio dele. O ato especial da fé consiste em receber a Cristo e descansar nele como ele é apresentado no Evangelho (Jo 3:15,16,18; Jo 6:40). Estritamente falando, não é o ato de fé como tal, mas, antes, aquilo que é recebido pela fé, que justifica e, portanto, salva o pecador.

d. A Base da Fé:

A base da fé está na veracidade e fidelidade de Deus, em conexão com as promessas do Evangelho. Mas, porque não temos conhecimento disto fora da Palavra de Deus, esta também pode ser considerada a base última da fé, e frequentemente o é .

Os católicos romanos vêem na igreja a base da fé e os racionalistas só a reconhecem na razão.

e. Fé e Certeza

A Igreja Católica ensina que os crentes não podem estar seguros da salvação, exceto nos raros casos em que a segurança é dada por revelação especial.

Os arminianos primitivos, que compartiam a posição semipelagiana de Roma, adotaram uma conceituação similar.

Os Reformadores reagiram contra a posição da Igreja católica e salientavam de modo unilateral a certeza ou segurança como um elemento mais importante da fé.

Os antinomianos consideravam esta segurança como constituindo totalmente a essência da fé. ignoravam todas as outras atividades da fé e consideravam a fé simplesmente como uma aceitação intelectual da proposição: “são-te perdoados os teus pecados”.

Kuyper, Bavink e Vos, sustentavam acertadamente que a verdadeira fé, que inclui confiança, traz consigo um senso de garantia segurança, que pode variar em grau.

APÊNDICE

DA FÉ SALVADORA



I. A graça da fé, pela qual os eleitos são habilitados a crer para a salvação das suas almas, é a obra que o Espírito de Cristo faz nos corações deles, e é ordinariamente operada pelo ministério da palavra; por esse ministério, bem como pela administração dos sacramentos e pela oração, ela é aumentada e fortalecida.


Heb. 10:39; II Cor. 4:13; Ef. 1:17-20, e 2:8; Mat. 28:19-20; Rom. 10:14, 17: I Cor. 1:21; I Ped. 2:2; Rom. 1:16-17; Luc. 22:19; João 6:54-56; Rom. 6:11; Luc. 17:5, e 22:32.



II. Por essa fé o cristão, segundo a autoridade do mesmo Deus que fala em sua palavra, crê ser verdade tudo quanto nela é revelado, e age de conformidade com aquilo que cada passagem contém em particular, prestando obediência aos mandamentos, tremendo às ameaças e abraçando as promessas de Deus para esta vida e para a futura; porém os principais atos de fé salvadora são - aceitar e receber a Cristo e firmar-se só nele para a justificação, santificação e vida eterna, isto em virtude do pacto da graça.


João 6:42; I Tess. 2:13; I João 5:10; At. 24:14; Mat. 22:37-40; Rom. 16:26; Isa. 66:2; Heb. 11:13; I Tim. 6:8; João1:12; At. 16:31; Gal. 2:20; At. 15: 11.



III. Esta fé é de diferentes graus, é fraca ou forte; pode ser muitas vezes e de muitos modos assaltada e enfraquecida, mas sempre alcança a vitória, atingindo em muitos a uma perfeita segurança em Cristo, que é não somente o autor, como também o consumador da fé.


Rom. 4:19-20; Mat. 6:30, e 5: 10; Ef. 6:16; I João 4:5; Heb. 6:11, 12, 10:22 e 12:2.



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Doutorando em Ciências da Religião (PUC-GO), Mestre em Ciências da Religião (PUC-GO), Licenciatura em Pedagogia (UVA-CE), História (UVA-CE), Matemática (UNIFAN-GO) e Bacharel em Teologia (FACETEN-Ro). Professor de Metodologia do Ensino da Matemática; Metodologia do Ensino das Ciências Naturais; Educação e Cultura; Fundamentos Epistemológicos da Educação e Educação, Sociedade e Meio Ambiente, Filosofia, Ética, Ciências Políticas (FANAP).